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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Juca de Lima, Mestre das Artes Plásticas

 Por Carlos Brandão

Natural da cidade de Goiandira (GO), “pertinho de Catalão”, Juca fala que começou em 1943, com 17 anos. “Era aprendiz, na construção civil”. Para quem não sabe, os pintores que trabalhavam nessa área, tinham, obrigatoriamente, que ser artistas. Observe as casas no estilo art déco que existem em Goiânia. Todas têm beirais feitos à mão, coisa de artista mesmo. Algumas têm pinturas no forro, imitando as igrejas da Europa. Tudo isso era trabalho de um mestre e seus aprendizes.

“Os mestres escondiam da gente, diversos detalhes que só eles sabiam, como os segredos da preparação das tintas”, fala Juca. “Aqueles beirais das casas, eram chamados de grega ou de renda. Os moldes eram importados da Europa”. Naquele tempo, o aprendiz Juca já pintava suas aquarelas. “Pintava e vendia na pensão que minha mãe tinha. Os clientes compravam”.

Certa vez, Juca foi trabalhar na casa de um milionário, segundo conta. “O mestre não sabia o que fazer, porque o dono da casa queria uma pintura no teto, no forro”. Juca, que já dominava alguns segredos da pintura, disse que faria a painel que o dono da casa tanto queria. “O mestre aceitou minha proposta. Fiz e, foi o primeiro salário que recebi como pintor, como artista”. Isso em 1943.

Começou aí a carreira do artista plástico Juca de Lima. Para manter a família, teve que morar em várias cidades como São Paulo. Sempre mantendo um trabalho que satisfazia o bolso. E mantendo suas pinturas, que deixavam em paz, sua alma. “Em cada tela dessas, há um grito, uma busca, uma procura. E quase nunca eu encontro o que andei procurando”.

Sobre suas influências, Juca avisa: “Aqui no sertão, o primeiro nome que ouvi falar foi de Da Vinci”. O artista passou a pesquisar mais e mais sobre o italiano que foi um dos principais artistas renascentistas. “Acredito que sou a pessoa que tenha mais informações sobre Da Vinci, em Goiás”. Quando   mudou para São Paulo, Juca trabalhou na inauguração do Ibirapuera, em 1954. A partir daí, teve contato e amizade com pessoas importantes como o conde Francisco Matarazzo Júnior, importante colecionador e mecenas das artes plásticas no Brasil.
 
Após a inauguração do Ibirapuera, Juca diz que saiu andando pelas ruas de Sampa, à procura de trabalho. Encontrou uma casa, uma oficina de pintura. “Entrei e pedi para o dono do local, um alemão, que me arrumasse um trabalho. De imediato ele me passou a tarefa de fazer 48 painéis. Fiz. O alemão gostou e me passou mais trabalhos. Foi então que pensei: para mim, essa é a minha escola de arte. Passei a estudar cada artista, sua velocidade, os detalhes de cada tinta, e aí comecei a entender realmente as diversas técnicas de pintura.”

A família de Juca era protestante. “Eles eram tão radicais quanto alguns religiosos de hoje”. Um dia, um tio foi visitá-lo em São Paulo. Perguntou a Juca, se ele estava trabalhando. Disse que sim e mostrou suas pinturas. O tio deixou claro que, para ele, aquilo não era trabalho. “Trabalho é o que faz calos nas mãos. Isso que você faz é coisa do diabo”, deixou claro. Esse pensamento, passados mais de 60 anos, ainda permanece verdade para boa parte da população. O artista, ainda hoje, não trabalha. Se diverte.

“Eu sempre tive o espírito livre, não me prendia a religiões. Cheguei a estudar a ciência Gaya. Entrei fundo nos estudos dos cultos pagãos. Depois de muito estudar, criei meu jeito de encarar a vida. Nunca interferi na crença dos meus filhos ou familiares.” Com isso, Juca diz ter criado “seu mundinho, sozinho”. E diz que nessa solidão, nesse seu mundo, cria sua arte.


Agora, próximo dos 90 anos, o artista conta que se debruçou sobre a aquarela. “Além da praticidade, a aquarela é mais instintiva, você pode conversar com ela, enquanto trabalha. Conheço 11 técnicas de pintura, mas nunca tinha me debruçado sobre a aquarela, como agora. Por ser pintado em papel, pode parecer uma arte menor da que é feita em tela. Mas hoje os papéis são de alta qualidade e uso impermeabilizante no papel, o que dá durabilidade à obra”.

Sobe os planos para comemorar os 90 de vida e os 73 de arte, Juca diz não ter nenhuma ideia. Fala que pensou numa exposição, mas “o Antônio da Mata, do Museu de Arte de Goiânia, disse que eu poderia usar o MAG, mas que teria uns gastos meio fora do que posso gastar”. A família tem outros planos: “Minha filha, sob meus protestos e revolta, quer fazer um cruzeiro pela Europa”, diz, meio brincando, meio na bronca. Sua filha também prepara uma festa para comemorar a data.

Para finalizar o papo, Juca conta como era o mercado de artes em Goiânia, nos anos 50. “Nas paredes, o hábito era pendurar fotos de familiares mortos.  Comprar quadro e pendurar na parede, era fora de cogitação”. E conta que a marchand Célia Câmara foi quem, na verdade, abriu as primeiras e grandes picadas para a profissionalização das artes plásticas por aqui. “Ela organizou o mercado”.
Juca de Lima tem um livro de poesias lançado: “Fontal – Vida poética”. Como sempre gostou de escrever e “sempre tive muita intimidade com as palavras”, o artista está com um novo livro pronto: Liberato, o homem que matou um deus. “Esse é meio autobiográfico”. Pergunto, para encerrar a conversa, se o Liberato tem a ver com seu estilo livre de viver, e Juca sorri um sorriso bonito que confirma e parece falar: sim, tudo a ver comigo.

Fonte:DM Diário da Manhã
https://www.dm.com.br/cultura/2016/02/90-anos-de-um-artista-aprendiz.html 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Boletim Conexões 2016 - Pintor Juca de Lima completa 90 anos

BIOGRAFIA DO AUTOR


JUCA DE LIMA



BIOGRAFIA DO AUTOR

Juca de Lima (1926) NASCIMENTO 1926 - Goiandira GO LOCAIS DE VIDA 1946 - São José dos Campos SP 1954 - Goiânia GO FORMAÇÃO 1940 - Rio de Janeiro RJ - Freqüenta a Enba, como ouvinte 1952 - São Paulo SP - Estuda Desenho na Associação Paulista de Belas Artes 1953 - São Paulo SP - Frequenta o ateliê de Deneval Pereira e Colette Pujol ATIVIDADES EM ARTES VISUAIS Desenhista 1946 - Goiânia GO - Funda uma Escola de Arte EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS 1964 - Cubatão SP - Individual 1974 - Goiânia GO - Individual, na LBP Galeria de Arte EXPOSIÇÕES COLETIVAS1959 - Goiânia GO - 1º Salão Goiano de Belas Artes - Medalha de Prata 1973 - Goiânia GO - Coletiva de inauguração da LBP Galeria de Arte 1973 - Brasília DF e Goiânia GO - Salão Global da Primavera - Prêmio Aquisição 1974/1976 - Goiânia GO - 1º e 3º Salão da Caixa Econômica do Estado de Goiás (Caixego) 1975 - Noite de Artes, no Palácio das Esmeraldas 1976 - Goiânia GO - 1º Salão Empresarial de Artes Plásticas de Goiás - Prêmio Aquisição 1977 - Goiânia GO - Salão de Arte Frei Confaloni 1984 - Brasília DF - Artistas Goianos, no Salão de Exposição do Banco Central 1985 - Brasília DF - Mostra 16 Maneiras de Pintar em Goiás, na Época, na Galeria de Artes ESCOLAS/MOVIMENTOS Figurativo: Figuração Lírica GÊNEROS/TENDÊNCIAS Paisagem TEXTOS CRÍTICOS"Estamos habituados a dizer que basta distinguir duas fontes temáticas - do Homem e da Natureza - para se ter uma visão panorâmica da evolução das artes visuais (bem como da literatura) em Goiás. (...) Juca de Lima situa-se entre os pintores intérpretes da Natureza (...) sabe bem articular a visão do regional e do universal, através de um princípio de generalização dos particulares, que norteia sua ótica de pintor. Mas não quer chegar à pintura abstrata, posto que se liga ao modelo natural e aos particulares da paisagem que constituem forte motivação visual. Quer dizer: a partir da paisagem exterior que lhe serve como primeiro referente, Juca recria ou elabora a paisagem interior, que é o ponto de chegada da sua expressão poética, sem abstrair-se do modelo. Através dos espaços captados segundo leis prospéticas, o pintor pretende alcançar o infinito segundo leis geométricas. Esse é o princípio cósmico que rege a sua composição, diríamos, à maneira de Leonardo da Vinci. Por isso Juca de Lima trabalha com linhas circulares que contornam suas paisagens, num envolvimento cósmico, contendo as linhas verticais das formas que se elevam. " Emílio Vieira in SILVEIRA, Px; MACHADO, Betúlia. Arte hoje - o processo em Goiás visto por dentro. Px Silveira e Betúlia Machado. Maria José Silveira; Filipe José Lindoso e Marcio Souza. Rio de Janeiro, Marco Zero. (Coleção Multiarte). FONTES DE PESQUISAARTISTAS goianos: pinturas. Brasília, Salão de Exposição do Banco Central, 1984. MOSTRA 16 Maneiras de Pintar em Goiás. Brasília: Época Galeria de Artes, 1986. FIGUEREDO, Aline. Artes Plásticas no Centro-Oeste. Aline Figueredo. Cuiabá, UFMT, MACP, 1979. Bibliografia. LOUZADA, Júlio. Artes plásticas: seu mercado, seus leilões. São Paulo: J. Louzada, 1984-. SILVEIRA, Px; MACHADO, Betúlia. Arte hoje - o processo em Goiás visto por dentro. Px Silveira e Betúlia Machado. Maria José Silveira; Filipe José Lindoso e Marcio Souza. Rio de Janeiro, Marco Zero. (Coleção Multiarte)